“Como celoricense não me revejo na actual feira do queijo Serra da Estrela”

Há cerca de 40 anos, um dos mais conceituados fotojornalistas do mundo, Alfredo Cunha, realizou um trabalho sobre a feira do queijo Serra da Estrela de Celorico da Beira. Na altura, a trabalhar para o jornal Século, este repórter, natural da vila que viu nascer Sacadura Cabral, aproveitou uns dias que veio passar à terra natal para registar o que designou por “verdadeira essência da tradicional feira do Queijo Serra da Estrela”. Algo que, no seu entender, se perdeu.

“Queria fotografar a verdadeira tradição e actividade dos pastores e a feira do queijo da Serra da Estrela. O trabalho foi depois publicado no Século Ilustrado”, explica Alfredo Cunha, sublinhando que actualmente a feira está desvirtuada. “Descaracterizaram-na completamente. Podiam tê-la modernizado, mas mantendo as suas características. Só que conseguiram destruir isso e não melhoraram nada”, defende este apreciador de Queijo Serra da Estrela, que classifica os actuais eventos como “uma coisa estranha”.

“Como celoricense não me revejo na feira actual”, conta, apelando aos políticos e entidades competentes que tenham a preocupação de criar uma grande marca. “Essa é que deveria ser a grande preocupação, ajudando aqueles que trabalham imenso para conseguir fazer queijo com a qualidade que lhe é reconhecida”, conclui.

Embora mais afastado dos jornais, continua a ter projectos editoriais na área da reportagem fotográfica, realizando trabalhos e publicando livros com várias reportagens. “Tenho duas marcas pessoais. Uma é trabalhar fundamentalmente a preto e branco e outra é ser humanista. O meu trabalho é sempre em volta das preocupações sociais”, sublinha.

Alfredo Cunha passou por África, registando os momentos da descolonização portuguesa, mas as suas imagens mais marcantes prendem-se com o acompanhamento da revolução do 25 de Abril de 1974. Os seus trabalhos sobre o PREC (Processo Revolucionário Em Curso, 1974-1975), o incêndio do Chiado (1988), a Roménia depois da queda de Nicolae Ceauşescu (1989), o Iraque em 2003, são igualmente momentos marcantes. Foi fotógrafo oficial do Presidente da República António Ramalho Eanes entre 1976 e 1978, voltando a ocupar o lugar, em 1985, com Mário Soares. Depois, assumiu-se como um dos nomes fortes do arranque do jornal Público onde se manteve entre 1989 e 1997.

O trabalho deste celoricense foi reconhecido a nível nacional e internacional, tendo recebido  diversas distinções e homenagens, como a Comenda do Infante D. Henrique (1995) ou as menções honrosas atribuídas no Euro Press Photo 1994. Hoje é “embaixador” de uma das marcas mais conceituadas a nível mundial de material fotográfico, como Official Fujifilm X-Photographer.